Língua: causa ou efeito da mordida aberta?
Comentário

Simposiasta Cleves Medeiros de Freitas

 ATÍPICA OU ADAPTADA
 
Considerações sobre interposição lingual  e apresentação de casos clínicos

             Procuraremos neste trabalho sintetizar os conhecimentos atuais e os estudos que têm sido desenvolvidos pela ciência ortodôntica e suas especialidades afins (a Otorrinolaringologia e em especial a Fonoaudiologia que oferece subsídios para nossas interrogações, quando tentamos chegar à etiologia das mordidas abertas em indivíduos com padrão facial normal) sobre interposição da língua e responder alguns questionamentos como:
Por que alguns indivíduos que têm deglutição atípica ou adaptada não apresentam os dentes em labioversão?
Estarão os lábios e a musculatura peribucal deste indivíduo exercendo uma pressão equilibrada e, por isso, o sistema estomatognático encontra-se equilibrado?
Ou o espaço intrabucal é suficientemente grande a tal ponto que a pressão lingual não altera a posição dos dentes no arco dentário?

As respostas a estes e a outros questionamentos certamente teremos no decorrer deste simpósio.

        Etimologicamente falando, atípico é o que se afasta do normal, do típico e adaptar é ajustar uma coisa à outra, amoldar, apropriar, acomodar-se, ajustar-se. Historicamente, na visão do dentista, mais prejudicial para o sistema é a deglutição atípica, definida como um projetar da língua que modificam as posições  dos dentes. Muitos programas de reabilitação muscular para prevenir recidiva foram criados por se entender é que os músculos mal posicionados e funcionalmente desequilibrados poderiam interferir no posicionamento dos dentes e na estabilidade pós-tratamento. É sempre bom relembrar que o sistema estomatognático é um complexo de estruturas que exercem funções vitais para o organismo como respiração, mastigação e deglutição e outras funções bastante importantes como voz; articulação das palavras e válvula auxiliar em esquemas de força. Certamente, essas estruturas não são especializadas em uma só função e, por isso, devemos pressupor que havendo alterações em qualquer parte delas, ocorrerá um desequilíbrio geral do sistema.

             Segundo Thurow (1979), muitos problemas ortodônticos surgem ainda na dentição decídua e, para muitos deles, não se faz necessário qualquer terapêutica de imediato. Porém, em alguns casos, o tratamento precoce pode ser de grande valia uma vez que a interceptação do potencial de desenvolvimento de uma maloclusão e a possibilidade de oferecer um benefício terapêutico importante não poderiam ser alcançados com similar

eficiência, em outra época. O autor afirma ainda que a língua não pode funcionar corretamente quando os arcos internos encontram-se em relação anormal e conclui que a correção desta desarmonia proporciona uma oportunidade renovada para que a função anormal volte ao seu equilíbrio e que as terapêuticas com aparatologia que se utilizam de grade ou de grampos devem interferir, por tanto, o menos possível na deglutição dos indivíduos tratados.

             Suga (2001) afirma que a deglutição atípica se origina devido ao desequilíbrio entre a musculatura peribucal e a língua nos seres humanos em idade ainda precoce. Esse desequilíbrio pode ser causado por vários motivos como tonsilite; desequilíbrio neuromuscular; macroglossia; aquiloglossia; perdas precoces de dentes decíduos na região anterior; respirador bucal e presença de dedo ou de chupeta. Ainda segundo o autor, a deglutição atípica é caracterizada pela contração labial no momento da deglutição e pela presença da mordida aberta anterior, Afirma também que nem sempre uma alteração na oclusão causará uma fonação anormal, devido à capacidade de adaptação que os lábios e a língua apresentam.

              Por tanto, entender o dinamismo do corpo humano, compreendendo sua ampla multifatoriedade, para só assim sistematizar uma conduta terapêutica, tentando, com isso, conseguir a normalização das inadequações funcionais, é de grande importância para os profissionais que lidam com uma infinidade de problemas que aflige o ser humano. Dentre elas as mordidas abertas .

         Outro ponto a ser discutido é a viabilização da funcionalidade, maneira que o organismo encontra de mostrar algumas modificações dos padrões funcionais provocadas por alterações mínimas no sistema estomatognático. Quando o padrão funcional é adaptado às estruturas existentes, muitas vezes fogem dos padrões normais convencionais. Quando avaliamos um indivíduo para chegarmos a um diagnóstico, devemos voltar a nossa atenção para o que encontramos: alteração real da funcionalidade ou uma adaptação à forma presente. Daí o motivo de ficarmos atentos ao realizar uma correção ortodôntica sem alteração da forma da base óssea ou alveolar, pois a maneira de deglutir adquirida anteriormente poderá persistir. Com isso, podemos ter a desagradável surpresa da recidiva dos casos tratados. Assim, afirmar que o posicionamento da língua e a forma de deglutir são decorrentes das estruturas dento-esqueletais e de como estão se comportando as outras funções do sistema em equilíbrio, é correto.

      São características de distúrbios mio-funcionais:

• PRESENÇA DE BABA (diurna e/ou noturna);
• TÔNUS DIMINUÍDO;
• LÁBIOS ENTREABERTOS;
• LÍNGUA PROJETADA (anterior e/ou lateralmente);
• MÁ POSTURA CORPORAL;
• RONCO;
• ALTERAÇÕES: mastigação, respiração, fala, deglutição;
 

• HÁBITOS PARAFUNCIONAIS;
• OCLUSÃO COM DESVIOS FUNCIONAIS;
• ASSIMETRIAS FACIAIS; e
• HÁBITOS E PADRÕES FAMILIARES.

      Sabe-se que, para o Otorrinolaringologista, o respirador bucal tem uma relação direta com as maloclusões estudadas pela ortodontia e que, em muitos casos, as amídalas hipertrofiadas não têm efeito direto no arco dentário. Por outro lado, vários autores como, por exemplo, Santos Pinto (1984) defendem que a etiologia da síndrome da obstrução nasal é hipertrofia das tonsilas palatinas e das adenóides.
 

      Tavares (2005) afirma que o problema causado pelos respiradores bucais ao sistema estomatognático, está na dificuldade de se diagnosticar corretamente,necessitando de uma ordem sistemática e organizada  para os procedimentos de exame. As descobertas devem estar reunidas de forma a oferecer explicações do problema do indivíduo e recomenda-se uma seqüência de procedimentos, inclusive encaminhar este indivíduo para o otorrinolaringologista.

         Vejamos o fato de um indivíduo portador de amídalas hipertróficas, mordida aberta anterior e atresia da maxila e  tendência a face longa. Muitos otorrinos não aceitam fazer remoção cirúrgica da amídalas, pois alegam que poderá causar faringite e tentam tratar com medicação por muitos anos. Um indivíduo com essas características foi acompanhado por nós como ortodontistas em uma determinada época. Na ocasião propomos ao Otorrino que, se ele conseguisse fazer com que a língua e a respiração do paciente não alterasse de alguma forma o sistema estomatognático, nós  tentaríamos  resolver o caso da mordida aberta anterior, associado a um apinhamento dentário e a uma tendência à face longa com mecänica ortodöntica e ortopédica (tipo aparelho fixo + modelador vertical).Resultado: nem a respiração nem a interposição de língua do pacientes foram tratados pelo otorrinolaringologista e ele mudou de ortodontista. Posteriormente, encontrei esse paciente e ele possuía as seguintes características: face longa, mordida aberta anterior, arcos atrésicos e apinhamento anterior. A mudança de ortodontista não foi a solução.

Tomando como referência o exposto  podemos concluímos que :

• Na deglutição adaptada, a língua se adapta à forma da cavidade oral ou às características das funções existentes;
• A fonoaudiologia trabalha no intuito de produzir novas adaptações, minimizando a problemática encontrada e não deixando que se agrave;
• Não devemos dicotomizar se a forma determina a função ou vice-versa;
• As avaliações devem ser realizadas no sentido de tratar o problema de forma geral;
• As alterações das funções do sistema motor oral podem contribuir para a  má resolução do trabalho ortodôntico
 

• Devemos fazer uso de aparatologia pré–ortodôntica que interfira o mínimo;
• O otorrinolaringologista tem uma importância decisiva quanto às futuras recidivas.
 
 

Casos Clínicos
 

01)PACIENTE:  M.P (n/1812)
     IDADE: 7 anos
     SEXO: Feminino
     QUEIXA PRINCIPAL:
          Mordida Aberta Anterior.
          Hábito de Sucção do polegar
    ANÁLISE CLÍNICA
         Paciente portador de maloclusão de classe I associado a mordida aberta anterior e atresia de maxila.
         Perda do 53 e conseqüente desvio de linha média superior c/ interposição de língua e lábio.
    MELHOR  TERAPÊUTICA: Em duas fases, a primeira pré-ortodôntica com o T4K e a segunda com aparatologia fixa filosofia Roth.
   FASE ATUAL: aguardando desenvolvimento da oclusão
 

         
 
 

 
 
 

 02) PACIENTE:  A.B. ( n/1207)
        IDADE: 9 anos
        SEXO: Feminino
        QUEIXA PRINCIPAL:
          Mordida Aberta Anterior.
          Diastemas multiplos nos dentes ântero- superiores(Fase do Patinho feio?)
         ANÁLISE CLÍNICA
         Paciente portador de maloclusão de classe I associado a mordida aberta anterior
          Associado a interposição de língua e lábio.
    MELHOR  TERAPÊUTICA: Em duas fases, a primeira pré-ortodôntica placa c/grade
impedidora em nov/98
     Remoção da  parte fibrosa entre os incisivos centrais superiores e em agosto de 2002
inicio da segunda fase  com aparatologia fixa filosofia Roth e final em 2003 por apresentar
um quadro clinico de gengivite foi retirado o aparelho fixo e encaminhado ao periodontista.
Posteriormente para fonoterapia. Reavaliado em 2004.
 


 
 
 



Referências

LOPES FILHO,O. Tratado de Otorrinolaringologista. São Paulo: Roca, p.270, 1994.

SANTOS PINTO,A – Alterações nasofarígeas e crâniofacias  em pacientes com adenoides hipertróficas. Estudo cefalométrico .Faculdade de Odontologia da UFRJ: Rio de Janeiro,1984.

SUGA,S.S. Ortodontia na dentadura decídua. São Paulo: Santos, p.15,2001.

TAVARES,S; COELHO-FERRAZ,M.J.P; GONÇALVES,F.A. Respirador Bucal, uma visão multidiciplinar.São Paulo: Lovise, cap.4, p.51-2, 2005.

THUROW, R.C. Atlas de princípios ortodônticos, Buenos Aires, Argentina: Inter-medica, p.185. 1979.