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A prática clínica atual, no que diz respeito ao
atendimento médico de pacientes, foi examinada, tendo em vista o uso dos
recursos tecnológicos atuais, com o objetivo de reavaliar as diferentes
etapas do exame clínico. A análise foi estruturada na seqüência: história
clínica, exame físico, exames complementares, diagnóstico e terapêutica.
Revisamos dados de estudos publicados recentemente na literatura além de
recomendações e comentários de médicos experientes que se dedicaram ao
tema.
Alguns pontos foram repetidamente enfatizados nas
diferentes publicações: a) desvalorização da história clínica, deixando-se
de extrair dela o entendimento global do problema clínico do doente, além
de não alcançar a potencial eficiência diagnóstica elevada; b) o exame
físico cotejado com outros métodos que empregam tecnologia revelou-se
método de excelente sensibilidade e especificidade para diferentes
afecções cardíacas; c) o uso excessivo de exames complementares, como uma
das características da prática médica atual - a necessidade clínica,
avaliada pelo médico, foi otimizadora da relação custo-benefício dos
exames complementares; d) diagnóstico: a taxa de diagnósticos precisos não
se modificou com a disponibilização de exames complementares que empregam
ultra-som, radiosiótopos e tomografia computadorizada, permitindo sugerir
que seu bom uso de acordo com a melhor indicação médica é o que pode
enriquecer a prática; e) terapêutica: embora seja recomendável o uso de
evidências para decisão clínica, o número de demandas da prática médica
excede as evidências disponíveis, e deve o médico conciliar os dados
científicos disponíveis (evidências) com a competência médica e a
necessidade dos pacientes (arte médica) para o melhor
resultado.
Conclui-se que o competente exame clínico pelo médico
permanece como método de excelente relação custo-benefício, senão a
melhor, para o adequado encaminhamento terapêutico dos
pacientes.
Palavras-chave: habilidade clínica, diagnóstico, história
clínica, exame físico, padrões de prática médica, tecnologia médica,
terapêutica.
(Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo
2001;1:1-14) RSCESP
(72594)-1057
INTRODUÇÃO
A prática clínica cardiológica atual processa-se
simultaneamente a transformações tecnológicas e científicas
acentuadas(1-3), que permeiam os diferentes aspectos culturais,
socioeconômicos, epidemiológicos e clínicos de cada Serviço(4). Nesse
contexto operam diferentes variáveis e circunstâncias, algumas delas
descritas a seguir.
Grande progresso tecnológico
Graças a esse avanço, muitas doenças são mais bem
compreendidas, há novas intervenções que podem ser colocadas a serviço dos
pacientes, e freqüentemente cabe escolher, de váriasTerapêuticas ou
intervenções possíveis, a mais apropriada para o
paciente(2-4).
Mudanças na prática médica
O gerenciamento atual da prática médica em aIguns países
reduziu o controle do médico sobre sua prática, e pacientes migram de um
médico para outro quando muda a empresa seguradora ou mudam os termos do
contrato. A escolha do médico pelos pacientes é impessoal, feita a partir
de uma lista ao invés de indicações(5).
Aumento de custos
Foi recentemente citado como uma das ameaças ao futuro
da prática cardiológica de países considerados economicamente ricos,
apesar de ter a Cardiologia várias intervenções bem fundamentadas em
evidências cientificas(6). A prescrição de novas drogas também é relevante
para o aumento de custos(7). Em alguns países, há redução de leitos
hospitalares(8).. Em outros, o aumento dos custos não se correlacionou com
decréscimo de mortalidade ou com aumento da expectativa de vida(9). Foi
formulada a hipótese de que o aumento de custos leve ao reavivar da
prática médica menos onerosa, baseada fundamentalmente no exame clínico do
paciente(10).
A Medicina Baseada em Evidências desenvolveu-se também
para reduzir os custos. Estimou-se que 30% das intervenções médicas não
são fundamentadas em evidëncias, e seriam dispensáveis. Por outro lado,
algumas decisões baseadas em evidências também podem aumentar o custo,
como, por exemplo, o uso de estatinas para prevenção primária da
aterosclerose ou o uso de inibidores da glicoproteína Ilb/Illa em
pacientes submetidos a angioplastia ou portadores de síndrome isquêmica
aguda(11).
Diferenças regionais
Existem diferenças entre países no emprego de técnicas
de tratamento, como, por exemplo, da angioplastia coronariana percutânea e
da revascularização cirúrgica do miocárdio(12). Por vezes, há dificuldades
de atender recomendações nacionais ou internacionais de prática médica
(consensos e "guidelines"), pois há intervenções que são mais disponíveis
em alguns países que em outros. Essas recomendações têm se aprimorado, mas
algumas delas, elaboradas por sociedades de especialidades, foram
consideradas insatisfatórias e com margem para melhora(13).
Por exemplo, nem todos os países europeus
desfibriladores implantáveis. Outros discutem listas de espera para
ressonância magnética, implante de próteses de joelho e quadril,
tratamento cirúrgico de catarata, e intervenções cirúrgicas em
geral(14).
Natureza da relação médico-paciente
A relação médico-paciente consolida-se em atitude de
confiança que deve ser construída(15), constitui por si só uma potente
ferramenta terapêutica(16), e também pode ser compreendida no espectro da
reação placebo, que pode durar até meses(17). Além disso, dada a
complexidade atual do sistema de saúde e de seus recursos, o médico deve
ser conseIheiro e defensor do paciente no sistema, e promover sua
autonomia, para que ele se habilite a cuidar de si mesmo(18).
Desumanização do ato médico
Foi conceituada como o cuidado com a doença sem
individualizar o enfermo; de reconhecer o dano orgânico sem atender ás
reações do paciente; de interpretar os resultados de uma prova invasiva
sem se interessar pelas manifestações do indivíduo manuseado; de esmiuçar
os resultados dos exames e não os sentimentos de insegurança, de
desorientação, pânico e de revolta da pessoa doente(1). Além da
materialidade física, anatomopatológica e funcional da doença, e o
desconforto que acarreta, há outras dimensões do ser humano doente que
requerem cuidado(4). Com freqüência, confunde-se a ciência que a Medicina
emprega com a Medicina propriamente. O lado humanístico não deve ser
apêndice, mas sim a verdadeira base da Medicina, que se fundamente na
relação moral do médico com o paciente(4). Às vezes, aterse exclusivamente
à queixa básica do paciente pode ignorar esses outros aspectos relevantes
para o melhor cuidado do enfermo(5).
Utiliza-se hoje a expressão "provedor de cuidados à
saúde" para se referir também ao médico, e "consumidor de serviço de
saúde" para o paciente(16). A redução do ato médico a uma relação de
consumo dessacraliza o valor do que cuida a Medicina(18). Induz também
pacientes a pressionarem(19), consciente ou inconscien-temente, para
consumirem os recursos a que têm acesso por contrato, como, por exemplo, a
realização de "todos os exames". Experiências de colegas de outros países
demonstraram que, não raramente, é mais trabalhoso, demanda mais tempo,
convencer o paciente de não haver necessidade de um exame ou intervenção
que o contrário.
A desumanização da Medicina e a elevação dos custos têm
suscitado reações dos diferentes segmentos que participam do atendimento à
saúde, e com diferentes motivações, profissionais, pacientes, instituições
acadêmicas ou não, e empresas, entre outros, e se discute a utilização de
medidas desnecessárias (1,4,10,15,20)
Expectativas dos pacientes
Verificamos que pacientes atendidos em hospital de
referência em Cardiologia procuraram atendimento predominantemente para
consulta médica (84%), e não exame ou intervenção em razão de recursos
tecnológicos instalados (15%)(21). Portanto, pacientes têm a expectativa
da interação humana.
Em outro estudo, 125 de 688 (18%) pacientes estudados
relataram que pelo menos uma de suas expectativas não foi atendida. As
expectativas não atendidas foram: a revisão do prontuário não ter sido
feita antes do início da consulta (4,3%), perguntas importantes não terem
sido formuladas na história clínica (4,9%), ausculta cardíaca não ter sido
feita no exame físico (5,5%), exame de laboratório não ter sido solicitado
(5,2%), medicação não ter sido prescrita (3,6%), encaminhamento para
especialistas não ter sido recomendado (5%), falta de informação ou
aconselhamento (2,8%), e outras (4,7%). Os autores concluíram que, ao
refinar habilidades de obter a história clínica e o exame clínico, os
médicos possam ser mais sensíveis às expectativas dos pacientes e prevenir
situações de conflito(22).
Desvalorização do ato médico
Foram apontados a desvalorização do médico, a diminuição
da remuneração, o excesso de especialistas, e a pletora de informação como
parte do panorama atual do exercício profissional(3,4), e, em algumas
circunstâncias, ressentimento contra médicos(4). Foram também mencionados
falta de conhecimento de médicos recém-formados, pouco empenho na
prevenção das doenças, e limitação excessiva do campo de
conhecimento(18).
Médicos generalistas em relação a
cardiologistas
Diferentemente do que acontecia na década de 50, quando
os pacientes eram encaminhados ao cardiologista depois de exames pelo
clínico geral ou por outro médico, hoje muitos pacientes procuram
diretamente os cardiologistas. Resulta a incumbência de o cardiologista
assumir no consultório também a atenção médica ou cardiológica em nível
primário(18).
Alta freqüência do uso de Medicina
alternativa(23)
O uso de Medicina alternativa por até 42% da população
em um país como os Estados Unidos(23-25) é tema para reflexões. Senão pela
atuação farmacológica das intervenções propostas, que não são isentas de
efeitos colaterais(25, 26), o fato de haver procura por terapêuticas
discutíveis pode ser entendido como sinal de desalento com a Medicina
desumanizada e tecnologizada(4). Entretanto, outro estudo considerou que a
razão de procura de Medicina alternativa ou complementar é o fato de estas
se colocarem mais próximas da cultura desses pacientes – seus valores,
crenças e orientação filosófica(27)
Mudança das práticas hospitalares, do ensino
médico(3,28) e do treinamento cardiológico(29)
As circunstâncias apontadas acima influem nos pacientes,
nas doenças, nos diagnósticos e na terapêutica; portanto, em todos os
aspectos da prática médica. É inegável que os pacientes têm maior
possibilidade de cura, de atenuação do desconforto da doença e do
sofrimento que há 50 anos; nem por isso não se deve melhorar(18). Mas há
advertências no sentido do melhor uso possível dos recursos atualmente
disponíveis(1), que podem ser analisadas de diferentes pontos de vista: de
política de saúde, sociológico, econômico, epidemiológico, ético,
metodológico, etc. Podem também ser examinadas no contexto prático do
exame clínico dos pacientes, e nossa análise terá esse último enfoque.
Assim, analisaremos o tema tendo em vista aspectos da história clínica, do
exame físico, dos exames complementares, do diagnóstico e da terapêutica
recentemente abordados na literatura.
HISTÓRIA CLÍNICA
O progresso do conhecimento médico permite que sintomas
e sinais dos pacientes sejam interpretados com maior profundidade. A
terapêutica atual modificou a expressão das doenças e a evolução dos
pacientes. Por outro lado, o emprego corriqueiro de recursos tecnoldgicos
mais ou menos complexos pode, inadvertidamente, induzir à desvalorização
da história clínica(30,31), impedindo que se alcance a plenitude das
informações que ela pode oferecer.
Escopo
A técnica de obter a história do paciente, incluindo a
compreensão de sua dimensão humana e a avaliação geral do quadro que se
apresenta, permite o entendimento de sua personalidade e pode ser
considerada a parte mais importante do exame do paciente(10). A expressão
de desconforto, exaustão, medo ou outra emoção externada pelo paciente é,
por si só, oportunidade de intervenção terapêutica. Por exemplo, estudo
recente de 12.986 pessoas demonstrou que à medida que aumenta a gradação
de um estado psicológico (no caso, raiva ou hostilidade), aumenta o risco
de morbidade e mortalidade por cardiopatia isquêmica(32). A percepção da
atitude do paciente potencialmente nociva à saúde, como a exemplificada, é
atributo da percepção do médico na história clínica. A anamnese já
representa início de auxílio, e não deve ser reduzida a escassas
perguntas, fornecendo mais dúvidas que respostas, e ser logo substituída
por indicação de métodos complementares de exame(1).
A incompreensão desses princípios pode interferir na
avaliação dos dados clínicos; a) expressões errôneas sobre a condição do
paciente; e b) representação fragmentada da condição clínica(33). Pode,
também, resultar na inadequação do encaminhamento diagnóstico e
terapêutico.
Duas características são comuns a todos os pacientes:
trazem algum problema (caso contrário, não estariam no médico) e, em
geral, estão ansiosos e com medo(1,16). Portanto, querem e precisam ser
ouvidos.
O ouvir
A qualidade da história clínica depende do tempo alocado
para ouvir, que deve ser flexibilizado para cada paciente; é difícil
praticar a Medicina com padrão industrial. Há consultas que foram mais
rápidas e outras mais demoradas(5). Clínicos de escol reiteram que, para
ser bom para o paciente, é preciso que se disponibilize tempo(34), e esse
tempo é fundamental para a boa relação médico-paciente e para favorecer a
aderência ao tratamento(35). Foi recomendado aos médicos que dediquem mais
tempo a ouvir o paciente; comparativamente, o tempo adicional gasto em
ouvir é mais eficiente que o tempo a mais gasto no exame físico(36). A
arte da Medicina que é exercida nesse mister não é computada em custos,
não é paga; é a variável oculta, negligenciada quase sempre em prejuízo do
médico(4), e, por que não dizer, também em prejuízo do
paciente.
Ouvir o paciente como médico exige atitude apropriada. É
um trabalho delicado; trata-se de um ouvir ativo, e não passivo,
burocrático, e formal. Essa etapa do exame clínico emprega a competência e
o conhecimento técnico, necessita ser valorizada, pois a partir dela se
encaminha o diagnóstico e a terapêutica. Essa competência é mais
facilmente percebida pelo paciente que por quem não participa do ambiente
terapêutico da consulta; os sistemas organizacionais têm métodos indiretos
de avaliação, e, portanto, imprecisos. No caso de se atribuir à ação e à
intervenção maior proeminência e valor, inclusive econômico, que ao ouvir,
pode-se induzir padrões profissionais potencialmente impróprios e
ineficazes do ponto de vista do alcance diagnóstico.
Poder diagnóstico
Há informações que são definidas ou acessíveis
principalmente pela história clínica. A história clínica, por exemplo,
informa o caráter agudo ou crônico de uma afecção e a instabilização da
angina de peito. A importância dessas informações foi reiterada
recentemente nas orientações ("guidelines") para o diagnóstico de
síndromes isquêmicas agudas - houve a preocupação de apontar apresentações
clínicas que não são de síndrome isquêmica aguda(37). Outro exemplo é á
importância dos dados da história clínica como indicadores de evolução
clínica de pacientes, e elementos decisivos na indicação de tratamento
cirúrgico de algumas condições(38,39)
Há situações nas quais os pacientes apresentam quadro
clínicó frustro, que sugere afecção grave ou instável, como a dor torácica
persistente e reentrante de leve intensidade (ou "não é dor doutor, é um
leve aperto"), e os exames complementares não revelam achados positivos ou
revelam achados sutis, só valórizáveis com o alto gráu de suspeição
,clínica na, anamnese, fundamentada na experiência do médico. Portanto,
mesmo histórias clínicas com poucos dados positivos podem ser reconhecidas
e interpretadas. Às vezes os pacientes contam essas condições
posteriormente a alguma ocorrência aguda = "doutor, é surpreendente, os
exames estávam todos normais". Éssas situações iÍustram a necessidade de
avaÏiação apropriada e da observação do paciente, principalmente em
situações de emergência.
Em pesquisa ambulatorial, o diagnóstico foi feito
fundamentalmente com dados da anamnese(36) em 66 de 80 (82,5%) pacientes
atendidos. Em outro estudo, o diagnóstico foi feito com dados da história
clínica(31) em 74% dos portadores de dispnéia. Estudo de 5 mil casos de
hospital universitário entre 1967 e 1970 revelouque 90% dos diagnósticos
foram possíveis fundamentalmente com dados da história clínica(30).
Recomendações internacionais advertem que, mesmo em condições de
diagnóstico difícil, a história clínica é útil – tome-se como exemplo a
embolia pulmonar. Como o valor diagnóstico dos sintomas e sinais
isoladamente não é grande, poder-se-ia subestimar a avaliação clínica.
Advertem os autores, entretanto, que há muitos dados que contradizem essa
posição. A combinação das variáveis pelo clínico ou por algoritmos permite
indicação razoável e permite categorizar o paciente em três níveis de
probabilidade diagnóstica pré-teste(40).
Portanto, diferentes estudos ilustram cientificamente o
alcance diagnóstico da história clínica, o primeiro da seqüência do exame
clínico.
A seqüência de raciocínio
Também não é excepcional a inversão do processo, a
seqüência história-exame clínico-exames
complementares-diagnóstico-tratamento ser modificada para exames
complementares-hipótese diagnóstica-história-exame físico-diagnóstico, ou
mesmo outras seqüências de combinações. No caso, pode inverter-se o
processo: ao invés de exames serem interpretados à luz do que é trazido
pelo paciente, é o paciente que é interpretado à luz do que informaram os
exames, e submetido não a anamnese mas a um interrogatório(1). Desse modo,
não se cumpre a primeira parte que deve ser atenta à visão do paciente
como um todo, passando diretamente para a segmentação da segunda parte,
destinada a examinar o paciente em órgãos ou sistemas (Tab. 1
).
EXAME FÍSICO
Escopo
O exame físico permite; a) ampliar a interação com o
paciente e complementar informações da sua dimensão humana; b) prosseguir
nos dados obtidos previamente (história clínica, interrogatório sobre
diferentes aparelhos, antecedentes hereditários e familiares, antecedentes
pessoais, hábitos e condições de vida); e c) tocar o paciente fisicamente,
e com o auxílio de instrumentos.
Tocar o paciente
O médico, ao praticar o exame físico, tem a franquia que
Ihe é dada de tocar o paciente. Esse aspecto solene da comunicação entre
médico e paciente não deve ser negligenciado e também tem seu sentido
terapêutico. Omitir essa etapa, importante na construção da boa relação
médico-paciente, no exame clínico, pode levar a expressões do tipo "sequer
me tocou", e ser interpretada como manifestação de desinteresse. Mesmo
pacientes em condição de saúde terminal (mesmo sendo médico), no qual o
exame físico não teria o sentido diagnóstico ou de orientação terapêutica,
reclamam quando não é feito o exame físico(15).
Poder diagnóstico
Quando os dados do exame físico são acrescentados aos
dados da história clínica, o diagnóstico passa a ser possível em 90% a 95%
dos casos(3). E temos a nosso favor que o melhor conhecimento nos dias
atuais permite a interpretação também com maior profundidade de achados do
exame físico.
Nos tempos atuais, em que métodos permitem perscrutar
dimensões anteriormente inimagináveis da fisiologia humana, haveria ainda
sentido no exame físico? Há estudos que examinaram essa pergunta em
situações específicas, que foram selecionados para
ilustração.
Cardiopatia isquêmica
Estudo de 1.030 doentes sintomáticos encaminhados para
avaliação sintomática de doença arterial coronariana e seguidos durante
três anos revelou que a avaliação inicial da história clínica do exame
físico e de exames complementares simples permitiu categorizar os
pacientes emprobabilidades de risco, e identificar quais se beneficiam de
exames invasivos adicionais. Por tanto a estratégia de investigação desses
pacientes deve incluir a avaliação clínica(41).
| Tabela 1. Etapas do
exame clínico. |
|
| Etapa 1 |
Etapa 2 |
Etapa 3 |
Etapa 4 |
Etapa 5 |
Etapa
6 |
|
| História |
Exame físico |
Exames
complementares |
Diagnóstico |
Tratamento |
- |
| Exames
complementares |
Hipótese
diagnóstica |
História clínica |
Exame físico |
Diagnóstico |
Tratamento |
Valvopatia
Foram comparados o exame físico e o ecocardiograma
transesofágico em 143 pessoas: 68 voluntários normais e 75 portadores de
doenças do tecido conectivo sem sintomas cardíacos. O exame físico
alcançou sensibilidade de 70%, especificidade de 98%, valor preditivo
negativo de 92% e valor preditivo positivo de 92%. Os autores concluíram
que o exame físico cardiológico em indivíduos assintomáticos foi excelente
para diagnosticar o estado cardíaco normal ou a
valvopatia(42).
Sopro cardíaco em crianças
O estudo de 222 crianças avaliadas para o diagnóstico da
etiologia do sopro cardíaco revelou que a avaliação clínica alcançou
sensibilidade de 92%, especificidade de 94%, valor preditivo positivo de
88% e valor preditivo negativo de 96%; nos 35% dos casos nos quais havia
dúvida diagnóstica, foi indicado ecocardiograma.
Ainda no mesmo estudo, tomando em consideração as
situações com maior grau de incerteza diagnóstica (portanto, naqueles nos
quais seria desejável o exame complementar), o ecocardiograma foi indicado
em 39% dos casos. Foram indicadas, como características de sopro
patológico, sopro holossistólico, intensidade 3/6, maior audibilidade na
borda esternal esquerda alta, timbre rude, segunda bulha anormal, e
presença de estalido protossistólico ou mesossistólico. O melhor indicador
de erro de classificação em bases clínicas foi o grau de incerteza
diagnóstica considerado elevado pelo médico examinador(43).
Aneurisma de aorta abdominal
Foram estudados 101 portadores de aneurisma de aorta
abdominal diagnosticado por meio do exame ultra-sonográfico e 99 doentes
sem aneurisma, para avaliar os achados do exame físico. A sensibilidade do
exame físico foi de 68% e a especificidade de 75%. A sensibilidade
aumentou com o diâmetro do aneurisma, tendo sido de 91 % nos indivíduos
com cintura menor que 100 cm. Concluíram os autores que a sensibilidade do
exame físico é moderada para o diagnóstico de aneurisna de aorta
abdominal, mas sugeriram que é sensível o bastante para diagnosticar
aneurismas suficientemente grandes para demandarem intervenção em
indivíduos que não têm cintura muito grande(44).
Portanto, conforme exposto, diferentes estudos
realizados com o objetivo de comparar o exame clínico com alguns exames
complementares, em situações em que ambos possam trazer informação
diagnóstica, concluíram que o exame físico tem melhor relação
custo-benefício para o diagnóstico, e a indicação do exame orientada
clinicamente, com base na indicação do médico, otimiza a informação do
exame complementar.
EXAMES COMPLEMENTARES
Escopo
Os exames complementares utilizados no contexto do exame
clínico do paciente são úteis no diagnóstico, para dirimir dúvidas, e na
avaliação funcional, para quantificar, estimar riscos evolutivos,
acompanhar evolução de tratamento, e monitorizar efeitos tóxicos de
medicamentos que venham a ser utilizados.
A disponibilidade atual de muitos exames complementares
pode ter levado ao entendimento, tanto por pacientes como por médicos, de
que esses métodos substituem o exame clínico. Pacientes às vezes iniciam a
consulta não pela narrativa do que se passa, mas apresentando os vários
exames a que se submeteram, chegando a ser necessária a interferência do
médico para que as queixas ou sintomas sejam narradas.
Essa atitude, além de modificar a estrutura lógica do
pensamento(31), leva à perda de informação relevante, que pode ser usada
em favor do paciente, por uma eventual avaliação superficial e incompleta
do enfermo(1). Por outro lado, a indicação de um exame com probabilidade
préteste muito baixa ou muito alta reduz a contribuição que o resultado
pode trazer(45,46).
Uso excessivo
Admite-se, atualmente, o uso excessivo de exames
complementares(19), uma das causas do aumento de gastos com a
saúde(47).Várias causas para isso foram apontada: a) cultura do sistema de
saúde que atua no médico; b) estímulo dos colegas e supervisores; c)
facilidade de acesso aos exames; d) pressão do próprio paciente ou da
família e f) prevenção contra possível litígio legal, demanda por certeza
"absoluta" do diagnóstico (19).
Poder diagnóstico
Foi salientado que muitos diagnósticos cardiológicos,
senão a maioria, podem ser feitos por meio da história clínica e do exame
físico, complementados por eletrocardiograma ou a radiografia do
tórax(10). Em nossa experiência, verificamos que 35% dos pacientes
atendidos em ambulatório de serviço de Cardiologia geral necessitavam
exames adicionais ao eletrocardiograma e à radiografia do tórax,
principalmente o ecocardiograma e a cineangiocoronariografia(48). A
utilização de medidas desnecessárias é uma preocupação atual (1, 19, 41,
47, 49), e diferentes orientações de sociedades médicas reúnem pareceres
de estudiosos e graus de evidência para indicar exames ou intervenções(50,
51).
Já se usou a expressão "fascínio tecnológico" – adoração
de métodos propedêuticos sofisticados, que se torna atraente e sobrepuja,
em atenção, a prória pessoa doente(1). O abuso de procedimentos de
tecnologia complexa indica insegurança e falta de confiança nos métodos
que não empregam tecnologia complexas(18). Os métodos novos e às vezes
complexos tornam-se necessário: a) quando os métodos mais simples falham;
b) quando os médicos não usam os métodos simples apropriadamente por
desconhecimento, falta de treino ou atrofia de habilidades previamente
adquiridas(10,52).
Particularidades da expressão
O fluxo de informações na consulta médica transcorre nos
níveis verbal e não-verbal da comunicação, enquanto exames complementares
exprimem-se geralmente de modo gráfico ou registrado em relatórios, às
vezes com abundância de números. Essas características podem levar o
observador incauto a considerar esses dados como evidência "objetiva",
para, em seguida, ser a própria definição da realidade. Os dados de exames
complementares são coletados no paciente em certa condição clínica, passam
por manipulação do que é o objeto de exame, e dependem de interpretação
para ser colocados a serviço do paciente. São, por tanto, condições
dependentes de observador.
Os métodos de imagem trouxeram justificado entusiasmo
para a prática clínica. Já se disse que uma imagem vale muito mais que mil
palavras; um jornalista brasileiro atalhou: tente dizer isso com uma
imagem. Cineastas modernos têm apontado para o esvaziamento do significado
das imagens, principalmente quando dissociadas de seu conteúdo. Em nosso
caso, poderíamos nos aproveitar do conceito e dizer que números e imagens
se empobrecem quando não contextualizadas clinicamente.
O necessário registro escrito também traz viés da
natureza da expressão escrita em relação à oralidade. A expressão oral
difere em aspectos físicos, situacionais, de forma e de estrutura
gramatical, em relação à linguagem escrita, que é mais densa do ponto de
vista lexical, como do ponto de vista das proposições que incorpora(53).
Essas características podem contribuir para supervalorizar exames
complementares.
Outra questão surge quando analisamos exames
não-invasivos em relação a exames invasivos. Há dados de literatura que
sugerem que dados obtidos no exame clínico do pacien te, associados com
dados de exames não-invasivos em pacientes com suspeita diagnóstica de
doença arterial coronariana, permitem avaliar os pacientes com cardiopatia
isquêmica estável em grupos de maior risco ou de menor risco de morte por
doença cardiovascular, e a maioria dos pacientes pode ser avaliada sem o
emprego de métodos invasivas, como a
cineangiocoronariografia(49).
Há também métodos auxiliares de diagnóstico e
tratamento, cujo emprego, num primeiro momento, foi para validar o método
e fazer observações clínicas, embora para muitos não tenha havido a
recomendação de que fossem rapidamente incorporados à prática clínica(52).
Há, métodos úteis para pesquisa, sem que evidências recomendem seu uso
clínico.
Exames para tranqüilizar pacientes
Pacientes nos quais foi detectado sopro cardíaco em
exame pré-admissional ou de seguros foram submetidos a ecocardiograma, que
resultou normal. Entrevistas realizadas na casa do paciente, depois de
seis dias e depois de doze meses, revelaram que dos 28 pacientes sem
sintomas estudados, 20 ficaram ansiosos depois do diagnóstico do sopro, e
onze tinham ansiedade residual, apesar do resultado negativo do de exame.
Concluíram os autores que apenas informar o resultado negativo do exame
não foi suficiente para tranqüilizar os pacientes, e sugeriram que outros
fatores, tais como a experiência prévia dos doentes e as circunstâncias
sociais, devem ser avaliados pelo médico, para permitir que se tranqüilize
apropriadamente o paciente. Os autores recomendaram não indicar um exame
"para tranqüilizar"(54); a discussão das preocupações do paciente e seu
esclarecimento foi considerada o método mais eficaz para esse fim; pedir
exames com essa finalidade aumenta a ansiedade do paciente ao invés de
diminuí-la(54-55). Situações de intranqüilidade(57-58) podem nascer; uma
frase imprecisa nos relatórios de exames pode ter forte impacto
iatrogênico, para não dizer dos resultados falsos positivos ou ambíguos.
Por vezes, as perguntas feitas durante o exame pelo examinador não
familiarizado com o quadro clínico do paciente no decorrer do exame também
geram intranqüilidade.
Implicações
Foi estudada a influência dos exames complementares nos
outros procedimentos da seqüência de investigação(59). Em outro país, 1989
a 1992 houve aumento do número de exames e também do número de
intervenções. Para cateterismo cardíaco, verificou-se, em dados
normalizados para o primeiro ano do estudo em pauta (1987), que o índice
chegou a 1,75 em em 1992 - isto é, quase o dobro de intervenções. No mesmo
período, para as intervenções subseqüentes (revascularização miocárdica e
angioplastia coronariana percutânea), o índice passou para 2. O
coeficiente para a correlação linear foi r2= 0,91. Os autores prosseguiram
analisando outras intervenções: o coeficiente determinação r2 foi superior
a 0,80 para mamografia em relação à biópsia e à mastectomia, para
tomografia ou ressonância magnética de coluna vertebral em relação à
intervenção cirúrgica posterior, para biópsia de próstata em relação à
prostatectomia, e para avaliação radiológica de deglutição em relação à
gastrostomia. Em relação ao aumento de exame ultra-sonográfico de abdome
no período, não se verificou aumento de colecistectomias (r2=0,48) ou
tratamento cirúrgico de aneurisma de aorta abdominal (r2=0,18). A taxa de
intervenção/exame foi de 1,5 para revascularização miocárdica percutânea
ou cirúrgica. Concluíram os autores que o aumento do número de exames
complementares se associou com aumento de algumas intervenções invasivas
subseqüentes(59). As razões para esses dados são numerosas e demandam
análise criteriosa. Foi sugerido que exames complementares prévios devem
ser incluídos nas análises das intervenções subseqüentes(59).
Outros autores verificaram relação consistente entre
eletrocardiogramas de esforço associados à cintilografia de perfusão
miocárdica e à angiografia coronariana. Essa relação não existiu para
eletrocardiograma de esforço isoladamente, sem associação com
cintilografia (r2=0). A relação entre angiografia coronária e
revascularização miocárdica foi significativa (r2=0,82; p < 0,001). Os
autores concluíram pela associação entre a freqüência de exames não
invasivos e procedimentos invasivos subseqüentes(50).
Poder diagnóstico de exames
complementares
São apresentados, a seguir, três exemplos ilustrativos
da literatura. Disfunção ventricular
esquerda na população geral
Deveríamos recomendar o ecocardiograma como exame de
triagem? Com esse objetivo, foram estudados 1.467 participantes do projeto
MONICA. A disfunção ventricular foi definida como fração de ejeção do
ventrículo esquerdo < 30% no ecocardiograma. Foi detectada disfunção
ventricular sintomática em 1,5% da população e disfunção ventricular
assintomática em 1,4% da população; 95% dos portadores de disfunção
ventricular assintomática eram portadores de outras afecções identificadas
clínicamente como cardiopatia isquêmica ou hipertensão árterial. Os
autores concluíram ser nescessária a triagem populacional com o emprego do
ecocardiograma, pois 93% dos indivíduos com disfunção ventricular podem
ser identificados clinicamente e, depois, encaminhamos para avaliação
ecocardiográfica(61). Eletrocardiograma
em relação ao ecocardiograma na cardiomiopatia hipertrófica
familiar
O eletrocardiograma foi avaliado em relação ao
ecocardiograma no diagnóstico da cardiomiopatia hipertrófica familiar em
estudo que incluiu 155 pessoas de dez famílias com mutações genéticas
previamente identificadas, das quais 77 eram afetadas e 78 não afetadas.
Para o eletrocardiograma, a sensibilidade foi de 61 % e a especificidade,
de 97%; para o ecocardiograma, a sensibilidade foi de 62% e a
especificidade, de 100%. A sensibilidade foi aumentada associando o
eletrocardiograma e o ecocardiograma. Os autores concluíram que o
eletrocardiograma e o ecocardiograma têm valor diagnóstico semeIhante, com
boa especificidade, mas sensibilidade limitada(62). Ecocardiograma e profilaxia de endocardite infecciosa em
portadores de prolapso da valva mitral
Verificamos freqüência de espessamento valvar superior a
4 mm no ecocardiograma em 5 de 96 indivíduos (5%) submetidos a avaliação
médica e que seriam dispensados(63). O assunto foi retomado e publicado
recentemente na literatura, em estudo de 147 pacientes com suspeita
diagnóstica de prolapso da valva mitral. Baseado no ecocardiograma, houve
modificação na orientação em 20 (14%) doentes - 14 deveriam deixar a
profilaxia e 6 deveriam iniciar a profilaxia. Esses últimos eram mais
velhos, homens, e com maior chance de ser portadores de sopro sistólico
mitral com irradiação para a axila (presente em 2 de 5 doentes sem
prolapso previamente diagnosticado). Potencialmente, a modificação de
profilaxia deveria ser feita em 20 doentes, mais foi efetivamente feita em
4. Concluíram os autores que o ecocardiograma de fato resultou em pouca
modificação na orientação de profilaxia(64).
DIAGNÓSTICO
Precisão
Estudos que avaliam a precisão diagnóstica são escassos
na literatura(30). Em estudo realizado nos Estados Unidos, a freqüência de
diagnósticos na necropsia e que não tinham sido feitos clinicamente foi 15
de 24 (63%) para a embolia pulmonar, e 13 de 41 (32%) para infarto do
miocárdio. A análise, nas décadas de 1960, 1970 e 1980, revelou que a taxa
de diagnósticos feitos na necropsia, sem que tivessem sido feitos
clinicamente, não se reduziu, apesar da disponibilidade de Medicina
Nuclear, ultrasonografia e tomografia computadorizada(65). Em estudo feito
na Alemanha, verificou-se que 7% a 11% de diagnósticos verificados na
necropsia não haviam sido feitos previamente(30). Foi sugerido que o
excesso de confiança nos métodos de exames complementares de diagnóstico
pode contribuir para o não reconhecimento e dificultar o
diagnóstico(65,66). Portanto, com base nesses dados, não seria impróprio
considerar que a virtude diagnóstica está principalmente na indicação do
médico, e não no exame complementar por si só, como parte de
rotina.
Situações de dúvida
Uma estratégia empregada em circunstâncias de dúvida
diagnóstica é ouvir uma segunda opinião. Hoje, com freqüência, a dúvida
gera um ou mais exames complementares, onerando a prática
médica(18).
Etiologia
O processo diagnóstico pode ser entendido em diferentes
níveis ou planos. Entre as categorizações possíveis, há aquela que situa
os diagnósticos em anatômico, funcional, sindrômico e etiológico. É
possível que, com base nos conhecimentos de hoje (dados fisiopatológicos
comuns, características anatômicas ou funcionais semelhantes, e doenças de
causa multifatorial), expressões de cunho demasiado genérico tenham sido
introduzidas na linguagem médica corrente, às vezes em detrimento do
diagnóstico etiológico. Por exemplo, ouve-se falar de um paciente portador
de insuficiência cardíaca, de angina de peito, sem exprimir a etiologia.
Desconsiderar a etiologia pode dificultar o encaminhamento
terapêutico(67).
TERAPÊUTICA
Etimologia
A etimologia nos auxilia: o termo grego "therapéuo"
significa "eu cuido"(68). Portanto, há a necessidade do ser humano para
exercer a terapêutica. É nesse sentido que Décourt conceitua o médico como
fator decisivo, e reitera que não poderá haver jamais a transferência da
profissão do médico para a máquina, que deve complementar o trabalho do
homem. Há estudos que fornecem evidências para a importância do fator
humano. Por exemplo, o apoio social atenuou o aumento da mortalidade
associado com a depressão depois do infarto do miocárdio(69).
Medicina Baseada em Evidências
Há atualmente um justificado empenho no sentido de
fundamentar as decisões terapêuticas em evidências científicas. Mas há
numerosas situações com as quais se deparam os médicos, sobre as quais não
há evidências de pesquisa básica ou aplicada(70); mesmo em situações nas
quais existem estudos prospectivos randomizados, há dificuldades nas
decisões terapêuticas(11) e cabe ao médico transformar a informação de um
grupo de doentes para o paciente individual(4). Um médico experiente
salientou que é ingênuo considerar a Medicina exclusivamente uma ação
baseada em fatos, como se fosse uma equação simples; o contexto é mais
complexo(4). A expectativa dos pacientes também é algo relevante e às
vezes os leva a opções de tratamento, não estabelecidas cientificamente,
mesmo que essas terapêuticas tenham risco potencial ou
desconhecido(26,71).
Há questões metodológicas que limitam o alcance de
evidências para toda e qualquer decisão - seriam necessários numerosos
estudos, de muitos pacientes, por tempo longo. Doenças com baixo número de
eventos e com múltiplas opções de tratamento colocam um problema adicional
para a escolha da melhor terapêutica. Nesses casos, são necessários
estudos de grande número de doentes, com a desvantagem da heterogeneidade,
com os pacientes seguidos por vários anos, com risco de mudança da
situação original na qual entraram no estudo ou de abandono do
estudo(11).
Por causa dessas limitações, a maioria das decisões
terapêuticas na prática cotidiana não é inteiramente o resultado de
Medicina Baseada em Evidências. Critérios empíricos - incluindo aspectos
psicológicos, sociais, econômicos, médicos e técnicos - também são
importantes. As decisões terapêuticas devem ser adequadas a cada paciente
e a cada Serviço, e baseadas tanto em critérios objetivos (Medicina
Baseada em Evidências) como subjetivos (Medicina Baseada na
experiência)(11).
Do estudo clínico para a prática
médica
Em geral, procura-se extrapolar resultados dos estudos
clínicos para a prática médica. Mas há, na prática clínica, situações
adicionais: (a) pacientes idosos, que, em geral, não são incluídos nos
estudos, provavelmente em razão da freqüência elevada de co-morbidade; (b)
mulheres, em geral sub-representadas em estudos clínicos; (c) numerosos
critérios de exclusão; (d) potencial seleção de doentes de menor risco de
eventos; (e) mudanças de drogas associadas na terapêutica e (f) o problema
da duração do estudo, baseando-se decisões no momento do fechamento. É
possível que os pacientes com os quais os médicos lidam na prática médica
sejam um pouco diferentes daqueles que participam de ensaios clínicos(72).
Outro ponto que os estudos em geral não analisam é por quanto tempo o
tratamento deve ser empregado(11).
Aderência
Questão relevante da terapêutica(73), seja sem ou com o
emprego de medicamentos, é a aderência ao tratamento(35). Estudando a
aderência em nosso meio, verificamos que 286 de 485 (59%) pacientes não
aderiam ao tratamento; essa questão poderia ser avaliada com duas
perguntas simples: a) Há alguma dificuldade em tomar a medicação
prescrita? b) Você sabe o nome dos medicamentos que usa?(74).
CONCLUSÕES
A prática clínica hoje, com os recursos disponíveis, ao
adicionar o conhecimento adquirido com o progresso científico e
tecnológico, pode servir melhor aos pacientes. Esse progresso, na prática
clínica, é colocado ao alcance do paciente individual por meio da
interação humana na qual transcorrem a história clínica, o exame físico, o
diagnóstico e a terapêutica.
Com base nos dados de literatura apresentados, o exame
clínico realizado com competência pelo médico permanece como o método com
melhor relação custo-benefício para o diagnóstico e demais decisões
necessárias no cuidado dos pacientes.
Parece ser oportuno, também, tanto do ponto de vista
humano como do ponto de vista das relações custo-benefício, investir no
tempo dedicado a ouvir os pacientes, e no cultivo de competências
clínicas, incluindo a história clínica e o exame físico de pacientes, além
dos outros investimentos materiais necessários, como o aprimoramento
tecnológico, para a melhor prática médica.
Current Clinical Practice, Clinical Examination, And The
Use Of Medical Technology
Alfredo José Mansur
We analyzed current clinical practice, patient care and
the use of medical technology, with the aim of evaluating the different
steps of the clinical examination on current basis. The analysis was
carried on in the sequence of medical history, physical examination,
laboratory tests, diagnosis and therapeutics. We reviewed recent published
data as well as some recommendations of experienced
physicians.
Some concepts were repeatedly emphasized in the
different reports: a) devaluation of the medical history, Iimiting a
comprehensive understanding of the clinical problem of the patients, as
well as hindering the full diagnostic power of the anamnesis; b) the
physical examination keeps currently, on the basis of recent studies, an
excellent cost-benefit ratio for the diagnosis of different cardiac
conditions; c) the excessive ordering of laboratory tests is one of the
hallmarks of current clinical practice. Ordering tests guided by the
clinical need, as perceived by the clinician, led to optimization of the
diagnostic contribution of laboratory examinations; d) the diagnostic rate
in some studies have not increased after the introduction of methods such
as ultrasound, scintigraphy and computed tomography - we suggest that such
an observation may be an evidence that the optimization of the diagnostic
process is at first a medical decision; e) therapeutics should be as
frequently as possible evidence-based. However, evidences are not at hand
for every patient in clinical practice. Thus, physicians make decisions on
the basis of scientific data (evidences), skilled care by the physician
matched to the individual patient's needs (that may be considered medical
art) to reach the best results in the care of patients.
Key words: clinical skills/competence, diagnosis, medical
history taking, medical technology, physical examination, physicians'
practice patterns, physicians role, therapeutics.
(Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo
2001;1:1-14) RSCESP
(72594)-1057
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