Introdução à Cefalometria Radiográfica - 5ª Edição
Capítulo XVIII - Tomografia Computadorizada (Sistema Compass)
Avaliação Craniofacial Tridimensional na Odontologia O protocolo Compass
Marcos Nadler Gribel, CD*
Bruno Frazão Gribel, CD**
* Especialista em Ortodontia, Ortopedia Funcional dos Maxilares e Dor Orofacial e Disfunção
Temporomandibular. Coordenador do Programa de Educação Continuada em Ortodontia e
Ortopedia Funcional dos Maxilares – CTPOFM (Belo Horizonte, São Paulo, Curitiba e Cuiabá).
** Residente Post-Doc do Departamento de Ortodontia da Universidade de Michigan, Ann
Arbor. Mestrando em Ortodontia da PUC - Minas (IEC).
Introdução
O estudo por imagens – imagenologia – tem evoluído aceleradamente nas
últimas décadas nas ciências da saúde. Na odontologia só mais recentemente
passou-se a explorar esse terreno fértil das imagens obtidas através
de radiográficas digitais, Tomografia Computadorizada (TC), tomografia
computadorizada corrigida (TCC), ressonância magnética (IRM)1
(Halazonetis, 2005), etc., porém de maneira tímida e incipiente, como, por
exemplo, no diagnóstico de Disfunções Temporomandibulares (DTM) e na
Implantodontia.
A evolução tecnológica nesta área permitiu avanços também na redução de
radiação ionizante a que são submetidos os pacientes. As máquinas modernas
de TC Cone Beam (TCCB) realizam uma varredura completa da face
em poucos segundos, dando ao paciente uma dose efetiva de 100 usv,
comparado com cerca de 2000 usv de uma varredura por TC Fan Beam
(TCFB)2, 3 (Cevidanes).
Conforto maior para o paciente se revela na posição do corpo – sentado
(figura 1) – e no aspecto físico do TCCB, menos intimidador e menos
“claustrofóbico” do que seus congêneres TCFB e também no tempo de
aquisição das imagens, por volta de vinte a quarenta segundos, dependendo
das necessidades em termos de qualidade das imagens.
Ao longo de mais de meio século, as radiografias cefalométricas obtidas em
norma lateral e frontal póstero-anterior (PA), assim como as radiografias
“panorâmicas” (PAN) têm sido padrão como exame complementar em diversas
especialidades odontológicas. Porém, as medições em cefalometrias
tradicionais são realizadas em imagens 2D de estruturas 3D, no caso face
e crânio humanos. As medições não refletem a realidade uma vez que há projeções
e sobreposições de estruturas bilaterais, magnificadas de maneira
diferente, com conseqüente dificuldade para a marcação de pontos cefalométricos4, 5
(Lagravère e Major, 2005 e Major et al 1994), mesmo quando
se emprega um sistema de análise cefalométrica computadorizada6 (Gribel,
1998). As distorções na localização de estruturas bilaterais acontecem em
virtude da diferença de profundidade dos campos avaliados4, 5 (Lagravère e
Major, 2005 e Major et al 1994). Algumas tentativas de se aplicar a TC com
vistas a se obter uma cefalometria 3D foram realizadas no final do século
passado7, 8 (DeFranco JC, Koenig HA, Burstone CJ, 1976, Chaconas SJ, Caputo
AA, Davis JC, 1976).
As imagens por TC também podem ser utilizadas no diagnóstico de dentes
supranumerários, retidos/impactados/ectópicos e também em casos de
agenesias9, 10 (Kim et al, 2003, Nakajima et al, 2005).
De maneira geral, as imagens 3D geradas a partir dos dados obtidos durante
o exame, podem ser projetadas em uma película ou filme ou ainda
na tela de um computador. Para maior precisão projeções ortográficas
devem ser geradas, pois são mais adequadas do que as projeções em
perspectiva, que podem deformar as imagens 3D geradas1 (Halazonetis,
2005). Os programas de computador bem como os próprios computadores
evoluíram também, e hoje computadores pessoais de características medianas
podem mostrar essas imagens com ótima qualidade. Contudo alguns
estudos mostram diferenças das estruturas medidas nos filmes com aquelas
medidas por ferramentas específicas dos programas de computador1
(Halazonetis, 2005).
Os tomógrafos computadorizados, tanto Cone Beam (TCCB) quanto Fan
Beam (TCFB), permitem a aquisição das imagens cruas (raw data) e a sua
posterior utilização por softwares específicos para medições sem distorções,
com precisão de centésimos de milímetros. O TCCB tem como principal
objetivo a visualização dos tecidos duros, ao passo que o TCFB pode,
através do protocolo de aquisição de imagens para tecidos moles, visualizar
estes tecidos, como os músculos (figura 2 e 3).
Estas imagens podem servir de orientação também para obtenção de copias
físicas em gesso, acrílico ou cera, que são “impressas” ou esculpidas por
impressoras especiais, num processo conhecido como prototipagem rápida
e que auxilia a antropologia, a medicina legal ou forense, a cirurgia reconstrutiva
de face, etc. Em breve, com o barateamento da tecnologia, a tradicional
moldagem dos arcos dentários será eliminada e a prototipagem rápida
será responsável pela criação de modelos em diferentes tipos de material,
como já acontece na obtenção de guias cirúrgicos na Implantodontia
e Cirurgia Ortognática, bem como nas próteses reconstrutoras de face. A
obtenção de guias para personalização e individualização de braquetes e
seu posicionamento estará, em breve, à nossa disposição.
Os dados crus podem ser arquivados no formato de imagens DICOM, padronizado
na medicina ao redor do mundo – são as imagens JPG da área
da saúde - e que podem ser importadas por vários sistemas e softwares
independentes como Mimics, InVivoDental, InVesalius, Dolphin, etc. onde
então servem de base para a execução de uma avaliação craniofacial tridimensional.
Esta avaliação se inicia, geralmente, pela determinação de
planos anatômicos de referência, tais como Camper, Frankfurt, Sagital
Mediano, Coronal (Ortogonal a Camper e/ou Frankfurt, etc.) e pela marcação
de pontos anatomo-radiológicos (figuras 4 e 5), que podem ser visualizados
em janelas com os três cortes de praxe (Axial, Coronal e Sagital),
bem como no crânio “virtual”, obtido pela reconstrução volumétrica tridimensional.
Este é o procedimento inicial para o Protocolo “Compass”
(Computerized Assessment) desenvolvido por nós. Mais do que uma cefalometria
tridimensional, COMPASS (Bússola) significa uma avaliação craniofacial
extensa, onde a simetria facial é avaliada, os desvios horizontais,
sagitais e verticais da mandíbula e do plano oclusal são identificados, além
das relações entre base de crânio, maxila e mandíbula nos três planos do
espaço. As inclinações, angulações e posições dentárias (figuras 5, 6 e 7)
podem ser analisadas em profundidade, contribuindo para um diagnóstico
seguro e eficaz da má oclusão nos seus componentes esqueletais, dentais
e também articulares, uma vez que as articulações temporomandibulares
(ATM) podem ser visualizadas e os espaços articulares analisados (figuras
8 e 9).
Uma vez determinados estes planos e pontos, são realizadas a medições
lineares e angulares, utilizando as ferramentas presentes no próprio sistema
computadorizado, com precisão e acuidade de centésimos de milímetro
(figuras 10 e 11). Podem ser medidos, em cortes axiais, as distâncias póstero-anteriores, desde o Plano Coronal11 até pontos utilizados em vários
tipos de cefalometria, como Bimler, McNamara, Ricketts12, Sassouni e outros.
Esse protocolo de avaliação das imagens tomográficas visa ampliar as possibilidades
de observação das cefalometrias 2D, em norma lateral e frontal
PA, utilizadas como exames complementares. Além das medições relativas
à estrutura óssea, também é possível realizar-se avaliações de tecidos moles
em 3D, tanto para tegumento (Análise facial 3D) quanto para formas,
volumes e características dos músculos da face e das vias aéreas superiores.
A localização precisa da mandíbula no contexto craniofacial é essencial, por
exemplo, nos casos de desvios de linha média (DLM)13,14 (Trpkova, 2003 e
Forsberg CT, Burstone CJ, Hanley KJ, 1984) em mordidas cruzadas unilaterais
posteriores ou em Classes II, subdivisão15 (Azevedo, 2003) e Classes
III, subdivisão16 (Hesse, 1997). A origem do DLM pode estar presente nos
dentes da maxila, nos dentes da mandíbula, no desvio da maxila ou de
toda a mandíbula, ou ainda na combinação dessas possibilidades17 (Gribel,
2002). Quando é identificado desvio mandibular, isso implica na correção
do desvio mandibular, quer seja de maneira ortopédica ou cirúrgica, e não
na compensação ou camuflagem através do movimento dental puro.
Quando o DLM está identificado como proveniente de desvios dentais,
indica-se a correção através dos movimentos ortodônticos. O Diagnóstico
Diferencial nestes e em outros casos é, portanto, fundamental18, 19, 20, 21, 22 e
23.
Uma avaliação craniofacial tridimensional através do Protocolo COMPASS
(Computerized Assessment) pode contribuir para o diagnóstico mais preciso
destas e de outras más oclusões, assim como permite a observação e a
mensuração de espaços articulares nas ATM (articulações temporomandibulares),
fator importante também no planejamento de correções ortopédicas
funcionais, ortodônticas, cirúrgicas e protéticas (figura 12).
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Figura 1 - Paciente posicionado
em tomógrafo cone
beam para obtenção de
imagens.
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Figuras 2 e 3 – Reconstruções 3D para tecidos moles (músculos).
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Figura 4 – Tela de Análise
Antro-pométrica, Protocolo
COMPASS. Os pontos anatômicos
podem ser marcados
sobre as reconstruções
3D em qualquer posição ou
diretamente nas imagens
de quaisquer dos cortes
obtidos pela tomografia. Os
planos de referência são
identificados e orientam a
localização espacial dos
dentes e ossos da face.
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Figura 5 – Pontos dentários
são também marcados
sobre os dentes virtuais
e/ou sobre os cortes tomográficos.
Assim podem ser
calculados o perímetro dos
arcos dentários, as dimensões
transversais, angulações
e inclinações axiais,
além da posição precisa de
cada elemento dental em
relação aos planos de referência
no crânio e face.
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Figura 8 e 9 – Os espaços articulares e anatomia das ATM podem ser
acessados no crânio virtual e nos cortes tomogáficos. Observe neste exemplo
como as inclinações dos Tubérculos Articulares das ATM apresentam
forma e inclinações diferentes, bem como as cabeças da mandíbula se
apresentam com dimensões e formas diferentes, relacionadas no caso,
com a mordida cruzada posterior e a mastigação predominante do lado
esquerdo, lado cruzado.
Figura 10 e 11 – Medições são obtidas de acordo com o Protocolo COMPASS
(Bússola) levando em conta os pontos e planos de referência.
Figura 12 - Imagem semelhante à tradicional radiografia panorâmica,
porém sem distorções ou magnificações. Podem ser geradas inúmeras
imagens como esta, onde a presença de alterações das curvas de irrupção,
extranumerários, alterações na forma dos dentes, patologias, fraturas etc.
é mais facilmente visualizada.
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